o ganho de produtividade em ser capaz de não fazer nada

Tradução e actualização do artigo em inglês “The productive experience of being able to do nothing” publicado a 2 de Maio.

Devido a algumas conversas que surgiram num workshop de GTD recente, lembrei-me de uma experiência psicológica muito interessante que foi realizada nos EUA há alguns anos. Achei interessante partilha-la aqui também e desenvolver um pouco o tema.

De uma forma resumida, esta experiência consistia em mostrar a diferentes pessoas uma galeria de arte com quadros. Depois era apresentado um falso sorteio em que cada pessoa poderia sair “vencedora” (não sabendo, claro, que todas outras também tinham tido a mesma sorte). O “vencedor” podia então escolher um dos quadros em exposição e levá-lo consigo para casa. No entanto, antes de apresentarem o sorteio aos visitantes, os organizadores dividiram-nos aleatoriamente por três grupos diferentes:

Grupo A – eram informados do sorteio e do prémio que tinham ganho à saída e tinham que escolher na hora o quadro para levarem para casa.
Grupo B – eram informados do sorteio à saída e recebiam um catálogo com todos os quadros para poderem escolher em casa. Passado uma semana voltavam para escolher o quadro.
Grupo C – não lhes foi dito nada à saída. Após uma semana da visita à galeria, foram informados por telefone do sorteio e pedido que fossem nesse mesmo dia escolher e levar para casa o quadro de prémio.

Até aqui, nada de mais. Um mês passou e foram feitos telefonemas a cada participante no sentido de averiguar quão satisfeitos estavam com o quadro que escolheram. Curiosos com o resultado? :)

O Grupo C teve – de longe – o maior nível de satisfação. Então, afinal de que se trata isto? Esta experiência estava relacionada com uma série de estudos que investigam a importância do chamado “processamento de bastidores” que é desempenhado pela nossa mente inconsciente. Para resumir as conclusões da experiência:

  • As pessoas que pertenciam ao Grupo B seriam, em princípio, aquelas que se esperaria terem uma taxa de satisfação maior, já que tiveram tempo para pensar em casa, analisar e decidir pela melhor opção. No entanto, esse raciocínio intenso feito a um nível consciente provou ter resultados aproximadamente idênticos aos do Grupo A que foram obrigados a fazer uma escolha imediata.
  • As pessoas do Grupo C nunca souberam que iam ter que escolher um quadro. Isso fez com que a mente “libertasse” esse assunto, mas apenas a um nível consciente. Nos estados mais profundos do incosciente, essa informação continuou a ser processada e ligações neuronais sobre o assunto foram criadas. Assim que foi necessário tomar uma decisão, foram capazes de a fazer de uma forma mais “intuitiva” e certeira!
Esta experiência veio-me à cabeça durante o workshop quando estava a explicar o conceito de “escolhas intuitivas” que a metodologia GTD nos facilita ter (resultado de uma “imagem completa” na nossa mente – isto é, um inventário completo de todos os nossos compromissos – E ser capaz de relaxar e usufruir do espaço vazio que resulta do facto de termos controlo sobre o nosso trabalho).

Mas o meu objectivo não era falar de GTD. O meu objectivo era, mais uma vez, salientar a importância de períodos “desligados” que a nossa mente tanto precisa. Hoje em dia estamos a sofrer uma sobrecarga enorme de informação a cada segundo. Começamos a ficar tão habituados ou dependentes dela, que mesmo quando não a temos arranjamos maneira de a ir buscar ou levar connosco (smartphones, podcasts, audiobooks, rss feeds, coisas para ler, etc). Quanto mais tivermos a nossa mente ocupada em “actividade”, menos capacidade sobra para o processamento de fundo, que nos ajuda de tantas maneiras diferentes.

Acho que é cada vez mais e mais importante encontrar silêncio no meio de tanta informação, de desligar de tantas fontes e de nos ligarmos à própria vida e à magia do que cada momento presente nos pode trazer.

Actualização:

Existe uma noção bastante aceite que o ser Humano usa apenas 10% da capacidade do seu cérebro (em média) e que devemos desenvolver as nossas capacidades até fazermos o uso total dessa capacidade. O meu estudo recente, especialmente na área da PNL, alterou-me um pouco esta ideia.
Neste momento diria que, usamos apenas 10% da parte consciente da nossa mente. Os restantes 90% estão inactivos ou desperdiçados? De maneira alguma! Podem não estar todos utilizados, pode de facto haver muito trabalho a fazer para desenvolvermos o potencial da nossa mente, mas essa grande e misteriosa parte incosciente está “sempre” em actividade e a trabalhar em nosso favor. Existe muito trabalho a ser feito a cada momento, ligações a serem criadas, hábitos a serem reforçados, aprendizagens a serem interiorizadas, e tudo sem termos a mínima noção disso. Pelo que vi até agora, é bom que assim seja! Há certas tarefas que a nossa mente inconsciente desempenha de uma forma impecável e que se as quisermos trazer para um plano consciente, apenas vamos estragar tudo :)

O que temos então de fazer? Acho que o mais importante é mesmo perceber como comunicar e usufruir desse potencial desconhecido das partes inconscientes da nossa mente. Assim que o começamos a fazer, podemos tirar imensos benefícios pois aprendemos a manusear um computador complexo que nos abre possibilidades infinitas.

Mais sobre isso, para breve ;)

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2 thoughts on “o ganho de produtividade em ser capaz de não fazer nada

  1. Foi muito interessante ler o artigo, por duas razões.
    Na sequência do seminário “Dominar o fluxo de trabalho” a que assisti, no princípio do ano, em Coimbra, estou quase a terminar a implementação do método GTD. Têm sido um processo desafiante e acima de tudo motivador.
    Depois, curiosamente no passado fim-de-semana assisti a um workshop relacionado com a comunicação na esfera do PNL. Então, parece-me que estou no bom caminho e acima de tudo um caminho ladeado de boas “margens”. Muito obrigada, Nuno.

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